O Livro do Chá

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O Livro do Chá é, provavelmente, um dos melhores livros que li neste ano. Eu o comprei por causa do título e porque vi que era de um autor japonês, então pensei, nada melhor do que um japonês pra falar de chá e dos rituais que envolvem todo o processo. Mas confesso que não sabia bem do que se tratava.

E então, minha gente, descobri que o livro saiu melhor do que a encomenda. Por que? Bom, ele não fala exatamente sobre chás, mas sobre a cerimônia do chá, que é um ritual importantíssimo na cultura japonesa. Mas ele também não fala só sobre a cerimônia do chá.

Kakuzo Okakura escreveu este livro especialmente para nós, ocidentais. Através da cerimônia do chá, ele nos conta um pouco sobre a história do Japão, sobre sua cultura e sobre como o chá influenciou a história do país. Mas tudo isso pensado para nos aproximar um pouco da cultura oriental e afastar certos esteriótipos e visões deturpadas que na época o Ocidente tinha sobre eles e que acho que continuamos tendo.

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O livro foi publicado em 1906 e, anos antes, o Japão ainda era muito fechado para o mundo. Então, na época, com a abertura da Universidade de Tóquio, algumas pessoas começaram a ser educadas na língua inglesa. Okakura foi um desses e acabou escrevendo esta obra que é considerada um dos mais importantes livros sobre a cultura japonesa escrito em inglês.

A vontade do autor de contar ao mundo sobre o “chaísmo”, termo que ele mesmo usa, parte de várias razões. Mas, para mim, uma ficou especialmente marcante:

O ocidental comum se habituou a considerar o Japão um país bárbaro, enquanto este cultivou as suaves artes da paz, mas o classifica como civilizado desde que começou a perpetrar carnificina em massa nos campos de batalha da Manchúria.”

Ou seja, para os ocidentais, o Japão ficou conhecido por causa de suas vitórias nas batalhas (não conheço os detalhes das guerras que aconteciam naquela época, gente!). Em outra parte, Okakura diz que o Código do Samurai é mais conhecido do que o “chaísmo”.

Além disso, o autor acha que havia pouca compreensão e respeito por parte dos Ocidentais sobre os costumes do Oriente de forma geral. E sinceramente acho que isso acontece até hoje. Temos uma tendência em classificar aquilo que temos e vivemos como o que é “normal” e tudo que foge dessa linha, bom, são outras coisas aí meio diferentes que inventaram um dia.

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E é aí que entra a importância da cerimônia do chá. O “chaísmo” reúne estética e religião (o taoísmo e o zen) e meio que condensa um certo espírito oriental, uma visão do mundo ou uma filosofia de vida.

A cerimônia do chá é um culto em que pessoas se reúnem no aposento do chá (sukyia). Este aposento, um cômodo bem pequeno) é decorado e preparado pelo mestre do chá nos mínimos detalhes. O mestre prepara a bebida (chá matcha, vocês conhecem? Essa forma de preparação mudou muito com os anos), que é bem diferente do que estamos acostumados, e passa para os participantes. Tem todo um procedimento e utensílios para preparar o chá e uma maneira específica de segurar a cumbuca e de beber.

Foi só depois de ler as explicações detalhadas sobre a cerimônia que consegui ter um pequeno entendimento sobre como o ritual pode condensar o espírito oriental. A coisa está em pequenos detalhes e em como você pensa esses detalhes. Para começar, qualquer pessoa pode participar de uma cerimônia do chá. A porta do aposento é bem pequenininha, todos tem que entrar se engatinhando, independente de quem você é, você irá se curvar no chão. A decoração do aposento é feita pensando na pureza e perfeição de uma experiência estética. Por exemplo, não se deve repetir cores. Se você coloca uma flor de cor x, não deve haver mais nada dessa cor no aposento para não causar um desequilíbrio.

Vocês conseguem entender? São detalhes, mas que tem a ver como um certo jeito de ver o mundo e de se relacionar com ele. Tem todo um cuidado na preparação, na criação de um clima, que exige uma sensibilidade e um estado mental específico. Além, claro, de uma ligação com os pensamentos do zen, mas que, bom, fica pra outra hora.

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Foi enorme o texto, mas isso significa que eu gostei muito do livro e que ele dá pano pra manga! Foi uma introdução à cultura japonesa bem completa, mas não sou tão boa em resumos e tem coisas que não podem ser resumidas assim tão facilmente.

Não sei, acho que já disse isso por aqui, mas tenho cada vez mais a impressão de que temos muito a aprender com a filosofia de vida oriental. É bom sair da caixinha e perceber que tem outros jeitos de olhar para o mundo. E acho que isso foi o que mais aprendi com esse livro.

Essa minha edição de O Livro do Chá tem 144 páginas, é de 2008, da editora Estação Liberdade (que, inclusive, tem uma coleção gigantesca de livros escritos por autores japoneses!).

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11 comentários sobre “O Livro do Chá

  1. Eu sou apaixonada pela cultura japonesa, mas confesso que ando bem dispersa sobre isso. Não leio mais, não pesquiso, e isso é muito triste :(
    Lembro que a primeira vez o ritual do chá foi no filme O Último Samurai, e depois dele todos os filmes japoneses que assisti, prestei atenção que sempre tem esse momento. Acho que não tão à risca como o ritual que conta no livro, mas é bem interesse de ver o perfeccionismo que eles tem com relação a fazer as tarefas simples do dia a dia, que pra gente é tudo na pressa.

    Beijos!

    • Sabe que acho que nunca vi isso num filme? Andei procurando vídeos no youtube e realmente deve ser uma experiência interessante de se vivenciar. E é bem isso que você falou, um perfeccionismo pra fazer as coisas simples e banais… Precisamos aprender com eles, né?

  2. Nossa, esse último trecho que você marcou me tocou, deu vontade de ler Um colega meu leu esse livro um tempo atrás, mas quando perguntei pra ele sobre o que era, ele só me disse que era sobre a cultura do chá no Japão e não me deu vontade alguma de ler. Com a sua explicação sim me atiçou. Explicação correta é tudo!
    Beijos!

  3. Adoro essa editora, tem tanta coisa legal e eles fazem um trabalho gráfico muito bonito.

    Está na minha lista de compra um livro que foi usado de inspiração para o filme Sleeping Beauty, acho que se chama clube do travesseiro.

    Adorei a dica…vou procurar…

    Beijos

  4. Imagino que esse seja um assunto que a enorme maioria das pessoas desconheçam. Eu nunca tinha lido nada sobre a cerimônia do chá e achei interessante! Acredito que alguns rituais devem ser preservados ao máximo pra evitar que uma cultura tão bonita e antiga se perca.
    Beijo

  5. Pingback: As alegrias de 2015 | Uma cadeira, por favor!

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