Um desabafo do mundo dos adultos

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Um autor que estudei há um tempo atrás, Giorgio Agamben, diz algo em um dos seus livros parecido com isso: se você pode falar sobre sua infância, é porque você já não está mais nela. Quando somos crianças, não temos ideias de que somos crianças.

O assunto é bem mais complexo do que isso (desculpa, Agamben!), mas esse pensamento sempre me chamou atenção porque sou uma pessoa que tem uma relação bem, como posso dizer, feliz (?) com meu passado: eu adoro. Gosto muito de relembrar minha infância, ver fotos, vídeos, reler meus diários e recordar situações que vivi. E tenho uma boa memória, o que me permite fazer isso com qualidade!

Eu acho que eu meio que sinto saudades. Não que eu queira voltar a ser criança, não é isso. Mas acho que algo se perde quando a gente cresce e talvez seja disso que eu sinta falta.

Das poucas vezes que tenho a chance de passar um tempo sozinha com uma criança, percebo que nós, adultos badass que somos, mais do que só a inocência, deixamos pra trás uma certa curiosidade pelo mundo. Simplesmente paramos de perguntar “por que?”. Também não temos mais paciência pra dar atenção e perder tempo com uma coisa boba. São poucas as pessoas que conseguem ficar horas fazendo a mesma atividade, que não vai dar em nada, como uma criança que se dedica horas a uma brincadeira. Também temos mais dificuldade de fazer amizades de repente – como elas fazem numa festinha de aniversário -, ou então de brigar, pedir desculpas logo em seguida, e voltar a fazer o que estávamos fazendo antes. Também é difícil fazer alguma coisa sem ter interesses, sem esperar algo em troca. E também de dar asas pra imaginação e acreditar nas ideias mais malucas e idiotas que passam pela cabeça. Esquecemos que podemos ter super poderes, que podemos ser homem e mulher e monstros e criaturas extraordinárias.

Não, não dá pra fazer isso porque tem alguém ali te observando. A gente cresce e desenvolve um monte de filtros. Somos todos críticos e julgadores, dos outros e de nós mesmos. Parece que andamos com um facão na mão, cortando e podando o que vemos pela frente, o que não está de acordo com o padrão, com o que um ser humano normal deveria ser.

Eu sei que estou generalizando, mas vocês entenderam o que eu quis dizer? É um tipo de relação com o mundo assim que eu sinto falta, com menos julgamentos, menos critérios, menos interesses. Acho que isso atrapalha mais as coisas e causa mais problemas do que a gente imagina…

Essa frase clichê de que “tem uma criança dentro de todos nós” é muito bonitinha, mas cada vez mais duvido disso. Quero dizer, pode até ser que tenha, mas bora escavar porque ela deve estar enterrada em algum canto.

*A foto é do Robert Doisneau.

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9 comentários sobre “Um desabafo do mundo dos adultos

  1. sabe, gostei muito da reflexão! q livro é esse? eu acho que a rotina engole a gente – ou a gente que deixa ela nos engolir – mas tenho cada vez mais vontade de encontrar maneiras de me sentir curiosa pelo mundo e de fazer qualquer coisa sem esperar nada, só fazer e curtir o tempo, o clima, a paisagem, não sei. ontem tava andando super rápido voltando pra casa do trabalho e pensei nisso: pra que essa pressa? enfim, gostei. vou continuar pensando nisso :)

  2. Carol, tu expressou exatamente como eu me sinto quanto a minha infância e o que eu penso sobre esse “mundo dos adultos”. Na verdade, eu atéé acho que a geração adulta de agora é “mais divertida” que antes, no sentido de ter mais idade e continuar indo em festas, jogando videogame, etc. Mas é verdade que as responsabilidades nos consomem mais e mais, e o que me deixa mais irritada, TUDO fica complicado! Trabalho complicado ok, faculdade complicada ok também, mas daí começam a surgir pequenos mal entendidos, briguinhas nada a ver…E elas se estendem. E ninguém se entende. E ninguém procura entender o outro. Tão mais fácil quando brigávamos com a amiguinha, dizíamos tudo que sentíamos e no dia seguinte voltávamos a ser melhores amigas ._. Mas vou te contar também, tem “inimizades” e “briguinhas” que eu vejo que fico em dúvida se estou em uma creche ou ambiente de trabalho

    Beijos, Vickawaii
    http://finding-neverland.zip.net

  3. Eu concordo muito com a Frase. Mas se a gente parar pra pensar apenas na Frase, ela está bem correta. Eu acredito que ela vai se repetir quando chegar na velhice. Acho que nosso “Mal do Século” é não estar feliz com o tempo que pertence e sempre olhar pro passado com esse olhar de saudade da coisa. Por isso não percebemos que estamos onde estamos. Como diz na Frase.

    Não olho pra infância com um olhar tão purista assim, acho que essa tal “simplicidade” é apenas uma maneira como um adulto olha a coisa. Ser criança tem as complicações de ser criança. Como ser adulto tem as complicações de ser adulto.

    Mas eu adorei seu Texto…

    PS: Vou frequentar mais seu espaço…estou me organizando pra isso, adoro o que você escreve.

    • Sim, acho que há mesmo uma insatisfação generalizada com o que estamos vivendo… E talvez minha maneira de procurar uma solução para isso seja buscar inspiração em um tempo em que as coisas eram diferentes, como na infância.
      Mas, claro, como falei, estou generalizando. Certamente ser criança tem suas complexidades, mas que também nós nunca vamos dar conta de acessar, né?

  4. Amei a reflexão <3 Sabe que eu adoro coisas infantis, objetos e acessórios com temática infantil e coisas do gênero. O problema é que acada vez que quero adquirir algo desse tipo, sou um pouco recriminada. Coisa mais fácil se cada um cuidasse de suas preferências, né? Essa inocência toda, esse descompromisso com o subentendido, e essa facilidade de relevar coisas pequenas e partir pras que valem realmente, são características facilmente encontradas nos pequenos e que sinto muita falta. Em mim e nos outros. :*

  5. Pingback: O menino que queria saber | Uma cadeira, por favor!

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