O Livro do Travesseiro

Da primavera, o amanhecer. É quando palmo a palmo vão se definindo as esmaecidas linhas das montanhas e no céu arroxeado tremulam delicadas nuvens.”

Nem precisei terminar de ler essas primeiras linhas de O Livro do Travesseiro para ter certeza de que seria maravilhoso. Ele foi escrito por Sei Shônagon, uma dama que serviu na corte de Teishi, Consorte do imperador Ichijô, no período Heian no Japão (794-1192). É algo entre um diário, coletânea de ensaios, percepções sobre o mundo, listas, opiniões sobre os mais diversos assuntos e fofocas da corte. O livro é considerado uma das obras mais importantes e representativas da literatura clássica japonesa. E com toda razão. Acho que a Sei deve estar muito orgulhosa em algum lugar por aí.

Existem muitos mistérios envolvendo a obra. A começar pelo próprio nome da autora, que não é esse exatamente, embora não tenham descoberto qual seja. As interpretações sobre o título também são as mais diversas e não há um consenso sobre o real significado dele. A forma e razão pelas quais ele foi escrito e publicado também são misteriosas. Mas esses são detalhes que, inclusive, dão um certo charme pra coisa toda. Toda a essa parte do contexto e da pesquisa que os tradutores fizeram estão no início do livro, mas eu aconselho ler essas informações por último porque elas farão mais sentido depois.

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De qualquer jeito, essas questões acabam ficando em segundo plano e também não foi por isso que me apaixonei pelo livro. Acima de tudo, o que mais me impressionou foi como Sei consegue descrever coisas, as vezes, tão banais de forma delicada, e a sensibilidade que ela tinha em conseguir enxergar a beleza das coisas e conseguir reuni-las nessas listas.

Coisas que nos alegram. Ler a primeira parte de uma narrativa ainda desconhecida, ficar muito fascinada e depois encontrar a continuação. No entanto, pode haver também decepções. Juntar os pedaços de uma carta que alguém rasgou e abandonou, e conseguir ler uma sequencia de várias linhas; ter um sonho indecifrável que esmaga o coração de pavor e receber a interpretação de não se tratar de nada especial causam muita alegria (…).”

Grande parte do livro segue esse padrão de escrita que se parece com listas ou anotações meio livres, numa mistura dos gêneros soshi e zuihitsu (literalmente “ao correr do pincel”), que é exatamente uma forma de escrever livre, de acordo com as ideias que surgem no momento, ao correr do pincel mesmo, como diz o termo. Tem uma vasta explicação sobre esses gêneros contextualizados na literatura japonesa no início do livro e foi realmente um mundo novo que se abriu pra mim. Se eu já achava que sabia pouco sobre a história do lado oriental do mundo, agora tenho certeza de que não sei praticamente nada.

Para quem gosta de fazer listas, e sei que muita gente gosta, esse livro é um prato cheio porque Sei é uma mestra nisso. Tem listas sobre tudo o que vocês imaginarem: Coisas que são melhores quando grandes, Coisas que devem ser curtas, Coisas que são adequadas a residências de nobres, Quanto a santuários, Quanto a colinas, Quando a monges, Coisas que causam apreensão, Coisas que parecem penosas… e por aí vai.

O que acho mais bonito nisso tudo é que não são simplesmente listas, na minha percepção. Se ela consegue fazê-las é porque ela deu atenção a determinados aspectos daquele tema. Não sei se é o tipo de coisa que alguém senta e escreve displicentemente. Através da própria escrita dá pra ter a sensação de que houve um tempo de observação, de experiência, de envolvimento com aquilo. Está aí um novo tipo de listas que deveríamos tentar fazer.

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Além de toda a sensibilidade perceptiva que ela tinha, e apesar de ser uma dama muito educada e de certo prestígio na corte, Sei tinha uma língua bem afiada e não deixava de criticar quem achava que merecia ser criticado, de alfinetar as pessoas e contar os malfeitos que aconteciam com os outros. Normal, né? Tem certas coisas que não mudam, seja nos anos 900 no Japão, seja hoje aqui no Brasil.

Quem se irrita com alguém que fala dos outros é que é inconcebível. Como podemos ficar sem falar dos outros? Haverá coisa melhor do que falar mal dos outros, evitando referir-se a si próprio? Mas isso parece condenável, e é também constrangedor quando a própria pessoa ouve o comentário e se enche de ódio. Em relação às pessoas de nosso relacionamento, nós tudo relevamos e nos calamos. Se não fosse por isso, também faríamos comentários e riríamos delas.”

Com uma pitada de humor, Sei conta várias pisadas de bola das damas e dos homens da corte, e também as próprias. No meio disso tudo vamos descobrindo a dinâmica da sociedade naquela época, a relação entre homens e mulheres, entre damas e serviçais, entre marido e mulher e, além disso, a relação das pessoas com a natureza, com as estações do ano, com a literatura, com a poesia, com a religião, com o tempo. É um livro riquíssimo para termos contato com essa forma de viver e de pensar tão distantes de nós.

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Fiquei muito triste quando o livro acabou. Mesmo. Já estava me sentido amiga da Sei e não queria que acabasse. Mas acabou. Agora só me resta reler algum dia.

Não vou mentir, estou escrevendo esse post há um tempo, porque simplesmente não sei como terminá-lo! Mas enfim, acho que já deu pra notar que eu gostei bastante do livro, né? Como parar de falar sobre uma coisa pela qual você se apaixonou? Difícil. Então, vou parar assim, do nada, por aqui, e deixar minha sugestão pra vocês. Ele é praticamente um livro de história e seria impossível falar resumidamente de tudo sobre o que ela escreve. Conhecendo a personalidade da Sei, acho que ela ficaria muito brava se eu fizesse isso. Seria uma deselegância profunda. Então só posso contar o quanto eu gostei e dizer que ele entrou para os preferidos, sem sombras de dúvidas.

Queria linkar aqui essa postagem da para o blog da Cosac Naify chamada Anotações para quando visitar o Japão, que achei que tem tudo a ver com o livro e complementa de certa forma a apresentação que eu fiz pra vocês.

É isso tudo.

(Obrigada, Dudu, por ter me dado um dos melhores presentes que já ganhei na vida!)

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7 comentários sobre “O Livro do Travesseiro

  1. Esse livro parece ser fascinante. Tenho curiosidade de conhecer melhor a literatura clássica oriental. Tenho uma antologia de poemas clássicos chineses, é incrível a forma como, mesmo a realidade daqueles poetas sendo tão diferente da nossa, eles ainda são relacionáveis (a maior parte fala sobre a paz do isolamento, montanhas, rios, vinho, mulheres etc.).
    Li esse texto da Alice umas 4 vezes, já. Sempre me esqueço que já li, quando vejo o link em algum lugar, mas mesmo depois de reconhecer o texto eu o leio de novo. A primeira observação é a mais interessante, na minha opinião. O jeito que eles tratam as metáforas na poesia. Desde que eu li aquilo, venho tentando adotar esse estilo nas minhas próprias poesias.

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