Um pouco sobre o Cinema Iraniano

Estou sempre falando do meu mestrado, de como o final de ano está conturbado por causa da pesquisa e etc, mas eu, de fato, nunca falei sobre ele, o que ele é. Não, não vou contar minha pesquisa, não falar da parte acadêmica da coisa. Mas já que estou pesquisando cinema (+filosofia+educação), pensei que fosse interessante dividir no blog um pouco do que tenho estudado.

A linha guia da minha pesquisa é o cinema iraniano, mais especificamente, um filme chamado O Espelho, do diretor Jafar Panahi. Para mim é bem louco e feliz como eu cheguei nesse cinema porque no início da faculdade eu ouvia falar do cinema iraniano como aquela coisa chata, arrastada, difícil de assistir. Talvez vocês também já tenham ouvido isso por aí. Meu primeiro contato foi com o filme Gosto de Cereja, do Abbas Kiarostami e me lembro de chegar na aula sobre cinema e comentar com meu professor (que é hoje meu orientador) como ele conseguia gostar daquele tipo de filme. Inclusive gostaria de ver de novo porque foi uma primeira impressão errada.

De fato, não são filmes fáceis de assistir. São sim longos, as vezes não tem muitas ações ou muitos diálogos, totalmente diferente dos filmes que fomos acostumados a assistir durante boa parte da vida. Por outro lado, os filmes são de uma simplicidade e honestidade enorme, que as vezes nos fazem pensar em questões sobre nossa existência a partir de situações quase bobas, como uma menina que quer comprar um peixe.

 photo getdo_zps54e271da.jpgO Espelho (Jafar Panahi, 1997)

 

Fiquei muito impressionada ao estudar a história do país e descobrir toda a repressão política/sexual/cultural colocada pelo governo. O Irã é um dos únicos países em que a república e a religião andam juntas. Ou seja, tem um presidente, mas tem também um líder religioso. Então a lei diz que você pode fazer tudo, desde que esteja de acordo com o islamismo. Imaginem o problema disso.

Essa situação aconteceu depois de 1979, quando houve uma mudança nos processos políticos do país, hoje conhecidos como Revolução Iraniana. Nessa época foi implantada também a Lei Islâmica, que foi uma das causadoras da opressão violenta no país. Para vocês terem uma ideia, o uso do véu pelas mulheres não era obrigatório antes disso. Então grande parte dessa tradição ou desses costumes que vemos hoje foi inventada. Eu fiquei muito chocada com essas informações. Bati de frente com os estereótipos na minha cabeça e entendi que a coisa é bem mais complexa.

A Lei Islâmica atuava, e ainda atua, em todos os setores da sociedade, então, obviamente, o cinema também foi afetado por isso. Como em todos os países com governo autoritário, os filmes eram submetidos a análise em todas as etapas, desde o roteiro até a exibição. A única forma de financiamento, durante muito tempo, vinha do governo, então não havia opção. Os cineastas – aqueles que não estavam ligados ao governo e ao cinema comercial – ficaram todos em uma situação horrível, não conseguiam fazer os filmes que queriam, não conseguiam produzir, nem exibir.

 photo ballon-blanc-1995-02-g_zpsd47c75a6.jpgO Balão Branco (Jafar Panahi)

 

Claro que não foi de uma hora para outra e a complexidade é grande, mas vou resumir dizendo que uma forma que eles arrumaram para driblar as normas do governo e conseguirem falar o que queriam com os filmes, já que muitos estavam engajados com a denúncia dos problemas da sociedade, foi mudar de estratégia e fazer filmes mais metafóricos, mais indiretos, menos óbvios. Por algum tempo os filmes de Hollywood eram proibidos no país, então os cineastas acabaram tendo acesso a filmes europeus, principalmente da França e da Itália e isso teve uma influência direta na produção deles e essa forma indireta de dizer as coisas nos filmes veio muito do contato com a Nouvelle Vague e com o Neorrealismo italiano. Com muita luta e esforço, a forma de financiamento do cinema no Irã modificou, com o tempo algumas normas foram ficando mais maleáveis e uma parte dos filmes iranianos finalmente conseguiu sair do país, serem exibido em festivais e, depois, comercializados.

Quando digo eles, estou falando de alguns dos diretores mais conhecidos internacionalmente, como Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf e Jafar Panahi, que vocês já devem ter ouvido falar. E, de novo, esse é um grupo de cineastas que não estava ligado ao cinema comercial e que tentava fazer algo mais autoral e engajado politicamente.

 photo 16738_2_zpsbeb00734.jpgAbbas Kiarostami

 

Com uma história política tão pesada como essa, que infelizmente eu não conseguiria detalhar aqui, não tinha mesmo como fazer o mesmo tipo de filme que se fazia antes da revolução. Principalmente, não tinha como fazer filmes iguais aos de Hollywood. Não tem nada de herói, mocinha, explosões, perseguições… O que tinha eram as pessoas, a vida das pessoas, a pura vivência na realidade, com os problemas que rodeavam todo mundo.

Então, o filme é sobre uma menina que quer voltar para casa sozinha, mas não é só sobre isso. Assista e pense bem se ele não está falando alguma coisa pra você, sobre nossa vida, sobre esse dia-a-dia que se arrasta, sobre os problemas que não tem solução. E acho que é por isso que me apaixonei por esse cinema. Eles conseguem falar de coisas profundas a partir de situações simples e de uma forma de fazer imagens que é bem diferente de outras, bem particular.

Não são filmes chatos não, gente, só são duros de ver porque são sobre a vida.

Tem tanta, mas tanta coisa que eu ainda poderia falar, que resolvi parar por aqui, porque minha dissertação está com 50 páginas e isso é um blog. Mas, se você não conhece nada do cinema iraniano, vou indicar alguns filmes que vocês devem encontrar fácil por aí.

Onde fica a casa do meu amigo? (Abbas Kiarostami, 1987)

 

O Espelho (Jafar Panahi, 1997)

 

Cópia Fiel (Abbas Kiarostami, 2010)

 

Bom, acho que por hoje é isso tudo!

Como comentei, tentei contar tudo de forma mais resumida. Mas o cinema iraniano é muito rico, cada cineasta tem seu estilo, suas particularidades e formas de contar histórias. Mas não tem como desligar a história política da história do cinema e da influencia disso na forma de fazer filmes que eles desenvolveram.

Enfim, se vocês tiverem alguma dúvida ou curiosidade sobre alguma coisa que eu falei mais rapidamente, é só perguntar! Espero que gostem das dicas e que deem uma chance ao cinema iraniano!

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17 comentários sobre “Um pouco sobre o Cinema Iraniano

  1. Que incrível esse post, vou procurar esses filmes pra assistir *_*
    há muitos anos eu assisti “O balão branco” e fiquei encantada pelo filme, exatamente pela simplicidade, mas ainda não tinha um olhar muito crítico para filmes diferentes do cinema que estava acostumada a assistir…depois que conheci o cinema francês, no começo fiquei meio incomodada com as diferenças, mas acabei me apaixonando pelas mesmas…agora fiquei com muita vontade de assistir esses filmes, é incrível tudo que podemos aprender através de filmes *_* SENSACIONAL!

  2. Muito muito muito legal ler esse post!
    Nunca me interessei especificamente por todo o cinema iraniano, mas assisti “o espelho” há muito tempo e me lembro de ter gostado. Infelizmente não me lembro tão bem do filme em si.
    Um que me lembro bem foi o “Filhos do Paraíso”, que é lindo lindo.

    Gosto demais de filmes assim sobre a vida. Não precisam ter uma história mega complexa, conspirações, explosões, heróis, perseguições ou romances arrebatadores. Basta que sejam sensíveis, né. :)

    ;*

  3. Lembro-me de que meu namorado fez um trabalho sobre o cinema iraniano no início do semestre e eu que digitei pra ele… Bem, isso tem um tempinho e só consigo me lembrar de como eu achei chato tudo aquilo. Mas, olha só, isso por que, naquela época, eu só “aceitava” o cinema norte americano. Hoje em dia eu tenho preferido filmes mais reflexivos, com menos cara de “filme comercial” (e acho que isso ficou mais forte depois que assisti ao filme Fale com Ela, do Almodóvar – gostei demais, demais).

    Gosto do cinema europeu e agora fiquei com vontade de conhecer o cinema iraniano (e vou começar com O Espelho).

    Ah, Carol, dia desses assisti a um filme tão bonito que vou deixar aqui a indicação: The Broken Circle Breakdown (Alabama Monroe). Já viu ou ouviu falar sobre ele?

    Beijo

    • Sim, acho que ninguém é obrigado a gostar de tudo, né? E tem muitos filmes chatos mesmo, mas acho que basta disposição pra assistir coisas diferentes. A gente acaba conhecendo coisas novas e se surpreendendo!
      Não conheço esse filme, vou procurar!
      :*

  4. Nossa Carol, que interessante, não sabia que esse era o tema da sua dissertação. O primeiro filme iraniano que eu vi na vida foi o “Onde fica a casa do meu amigo?” e eu me lembro de ter ficado tão impressionada, de ter achado aquilo tudo tão simples e lindo… Depois disso vi muita coisa do Kiorastami, do Mohsen Makhmalbaf… (do Panahi eu vi pouca coisa). Mas tenho vontade de rever tudo, vi muita coisa quando era super novinha, acho que teria outra visão assistindo hoje (apesar de já ter amado tudo na época).

    Acho impressionante a qualidade do cinema iraniano, com uma nova geração de diretores incrível (como o não-tão-novo, mas ótimo Asghar Farhadi). Um exemplo realmente. Sou fã!

  5. Eu conheço tão pouco do cinema iraniano, mas o pouco que eu conheço eu gosto tanto… Anotei cada um desses filmes aqui num pedaço de papel pra procurar mais tarde (embora eu ache que tenho os do Kiarostami no HD, em algum lugar).
    VI A Separação, do Asghar Farhadi, e gostei muito. Estou pra assistir O Passado e os outros filmes dele já faz bastante tempo, mas existem muitos filmes nesse mundo. Do Kiarostami eu vi Like Someone in Love (que tem pouco de iraniano, visto que é uma produção francesa, filmada no Japão e com atores japoneses, com um título em inglês). Ouvi algumas críticas, mas eu gostei bastante. Dizem que o Kiarostami usa muita poesia árabe nos principais filmes dele. Verdade? Também sei que o próprio escreve poesia, mas nunca li nada dele, não acho que tenha sido publicado por aqui.

    delirandoeescrevendo.blogspot.com.br

  6. Ah que incrivell!! eu nunca tinha pensado que toda essa represália tinha chegado tambem no cinema iraniano. Se for parar pra pensar, é óbvio, mas nunca tinha me tocado. E como esses cienastas foram inteligentes ?!
    Agora que entrei de ferias, finalmente fiz uma lista de filmes que quero ver, vou adicionar “O Espelho” la!
    Agora to me envolvendo mais com a area, é legal saber dessas vertentes do cinema!

  7. Carol, parabéns pela postagem, pela pesquisa, enfim, por trazer esse assunto – e essa reflexão – à tona. Normalmente a gente vê que filme europeu por exemplo ‘tem menos ação’ mas nunca refletimos o porquê de ser assim, e quanto aos filmes iranianos, sinto até vergonha de falar, mas eu não saberia citar nenhum. Eu acho importante você indicar filmes que costumam ser ignorados por nossa sociedade ocidental (afinal, não passa no cinema!) e ainda achei muito bacana você ter contado a ‘história’, porque ser assim. E a situação do oriente médio é uma coisa bem bizarra na verdade, como a sociedade ‘regrediu’ no que tange à liberdade em tão poucos anos. Felizmente temos os artistas para continuar transmitindo valores importantes não só para o Irã ou seu país, mas da humanidade mesmo. Nunca tinha “pensado” em ver um filme iraniano, mas agora depois desse post vou procurar assistir (:

    Beijos, Vickawaii
    http://finding-neverland.zip.net

  8. Carol, adorei saber mais a respeito da tua pesquisa. Embora eu tenha me desligado momentaneamente dos assuntos acadêmicos, vivi bastante o dia a dia e tive contato direto com pesquisas relacionadas ao cinema e a educação. O único filme iraniano que já assisti é A Separação e sei que se trata de um filme com um caráter mais “comercial”, já que foi premiado com o Oscar. Quando falo comercial, é porque acredito que seja menos complexo, e com isso tenha a tendencia a agradar um maior número de pessoas. Minha orientadora da bolsa de IC (quando eu era bolsista) sempre se preocupava em ratificar a importância de assistirmos a outros filmes e mergulhar em outros cinemas, sair da zona de conforto e nos abrirmos para os possíveis questionamentos. Mas assim como um professor geralmente não se arrisca a passar um filme que possa levantar questões que ele tenha medo ou não saiba responder – e com isso se limite a levar aos seus alunos sempre a mesma coisa – nós também temos medo de transformar nossas ideias e problematizá-las. Enfim, A Separação apesar desse “comercial” que me referi, é um filme mais “parado” mesmo, com uma narrativa sem mocinhos e mocinhas, bem como tu falou, mas isso não anula o fato dele ser ótimo. Nos assusta essa ligação entre religião e política não serem desassociadas e esse filme mostra muito o poder e a presença disso. Mais uma vez, adorei o post. Espero que um dia nos encontremos e possamos debater sobre cinema e essas coisas pessoalmente :D :*

    • Também ja assisti A Separação e é um filme excelente mesmo! Acho que mostra um tipo de relação que não vi em outros filmes iranianos. Mas concordo plenamente sobre tudo que você falou, Kat! Acho que essa é a questão que pega quando pensamos no cinema na escola, né? Arriscar é sempre muito arriscado… Enfim, é uma discussão complicada e seria ótimo realmente se pudessemos conversar pessoalmente! *.*

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